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O Espelho
Machado
de Assis
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O Espelho
Esboo de uma nova teoria da alma humana
Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, vrias questes de
alta transcendncia, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor
alterao aos espritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era
pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar
que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitaes e aventuras, e o
cu, em que as estrelas pestanejavam, atravs de uma atmosfera lmpida e
sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas
metafsicas, resolvendo amigavelmente os mais rduos problemas do
universo.
Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam;
mas, alm deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando,
cochilando, cuja esprtula no debate no passava de um ou outro resmungo
de aprovao. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre
quarenta e cinqenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, no sem
instruo, e, ao que parece, astuto e custico. No discutia nunca; e
defendia-se da absteno com um paradoxo, dizendo que a discusso  a
forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herana
bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins no controvertiam
nada, e, alis, eram a perfeio espiritual e eterna. Como desse esta
mesma resposta naquela noite, contestou-lhe um dos presentes, e desafiouo
a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele)
refletiu um instante, e respondeu:
- Pensando bem, talvez o senhor tenha razo.
Vai seno quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou
da palavra, e no dois ou trs minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa,
em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu
radicalmente os quatro amigos. Cada cabea, cada sentena; no s o
acordo, mas a mesma discusso tornou-se difcil, seno impossvel, pela
multiplicidade das questes que se deduziram do tronco principal e um
pouco, talvez, pela inconsistncia dos pareceres. Um dos argumentadores
pediu ao Jacobina alguma opinio, - uma conjetura, ao menos.
- Nem conjetura, nem opinio, redargiu ele; uma ou outra pode dar
lugar a dissentimento, e, como sabem, eu no discuto. Mas, se querem
ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que
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ressalta a mais clara demonstrao acerca da matria de que se trata. Em
primeiro lugar, no h uma s alma, h duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas
consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para
entro... Espantem-se  vontade, podem ficar de boca aberta, dar de
ombros, tudo; no admito rplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou
dormir. A alma exterior pode ser um esprito, um fluido, um homem, muitos
homens, um objeto, uma operao. H casos, por exemplo, em que um
simples boto de camisa  a alma exterior de uma pessoa; - e assim
tambm a polca, o voltarete, um livro, uma mquina, um par de botas, uma
cavatina, um tambor, etc. Est claro que o ofcio dessa segunda alma 
transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que ,
metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades,
perde naturalmente metade da existncia; e casos h, no raros, em que a
perda da alma exterior implica a da existncia inteira. Shylock, por
exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perd-los
equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal;  um
punhal que me enterras no corao." Vejam bem esta frase; a perda dos
ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora,  preciso saber que a
alma exterior no  sempre a mesma...
- No?
- No, senhor; muda de natureza e de estado. No aludo a certas
almas absorventes, como a ptria, com a qual disse o Cames que morria, e
o poder, que foi a alma exterior de Csar e de Cromwell. So almas
enrgicas e exclusivas; mas h outras, embora enrgicas, de natureza
mudvel. H cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros
anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma
provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheo uma
senhora, - na verdade, gentilssima, - que muda de alma exterior cinco, seis
vezes por ano. Durante a estao lrica  a pera; cessando a estao, a
alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a
rua do Ouvidor, Petrpolis...
- Perdo; essa senhora quem ?
- Essa senhora  parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se
Legio... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado
dessas trocas. No as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episdio de
que lhes falei. Um episdio dos meus vinte e cinco anos...
Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido,
esqueceram a controvrsia. Santa curiosidade! tu no s s a alma da
civilizao, s tambm o pomo da concrdia, fruta divina, de outro sabor
que no aquele pomo da mitologia. A sala, at h pouco ruidosa de fsica e
metafsica,  agora um mar morto; todos os olhos esto no Jacobina, que
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conserta a ponta do charuto, recolhendo as memrias. Eis aqui como ele
comeou a narrao:
- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado
alferes da Guarda Nacional. No imaginam o acontecimento que isto foi em
nossa casa. Minha me ficou to orgulhosa! to contente! Chamava-me o
seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, notese
bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na
Escritura; e o motivo no foi outro seno que o posto tinha muitos
candidatos e que esses perderam. Suponho tambm que uma parte do
desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distino. Lembra-me
de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revs,
durante algum tempo. Em compensao, tive muitas pessoas que ficaram
satisfeitas com a nomeao; e a prova  que todo o fardamento me foi dado
por amigos... Vai ento uma das minhas tias, D. Marcolina, viva do Capito
Peanha, que morava a muitas lguas da vila, num stio escuso e solitrio,
desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui,
acompanhado de um pajem, que da a dias tornou  vila, porque a tia
Marcolina, apenas me pilhou no stio, escreveu a minha me dizendo que
no me soltava antes de um ms, pelo menos. E abraava-me! Chamavame
tambm o seu alferes. Achava-me um rapago bonito. Como era um
tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moa que houvesse
de ser minha mulher. Jurava que em toda a provncia no havia outro que
me pusesse o p adiante. E sempre alferes; era alferes para c, alferes para
l, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joozinho, como
dantes; e ela abanava a cabea, bradando que no, que era o "senhor
alferes". Um cunhado dela, irmo do finado Peanha, que ali morava, no
me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", no por gracejo, mas
a srio, e  vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo
caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. No
imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao
ponto de mandar pr no meu quarto um grande espelho, obra rica e
magnfica, que destoava do resto da casa, cuja moblia era modesta e
simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da
me, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D.
Joo VI. No sei o que havia nisso de verdade; era a tradio. O espelho
estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em
parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ngulos superiores da moldura,
uns enfeites de madreprola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas
bom...
- Espelho grande?
- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho
estava na sala; era a melhor pea da casa. Mas no houve foras que a
demovessem do propsito; respondia que no fazia falta, que era s por
algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais.
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O certo  que todas essas coisas, carinhos, atenes, obsquios, fizeram em
mim uma transformao, que o natural sentimento da mocidade ajudou e
completou. Imaginam, creio eu?
- No.
- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas
equilibraram-se; mas no tardou que a primitiva cedesse  outra; ficou-me
uma parte mnima de humanidade. Aconteceu ento que a alma exterior,
que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moas, mudou de
natureza, e passou a ser a cortesia e os rapaps da casa, tudo o que me
falava do posto, nada do que me falava do homem. A nica parte do
cidado que ficou comigo foi aquela que entendia com o exerccio da
patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar,
no?
- Custa-me at entender, respondeu um dos ouvintes.
- Vai entender. Os fatos explicaro melhor os sentimentos: os fatos
so tudo. A melhor definio do amor no vale um beijo de moa
namorada; e, se bem me lembro, um filsofo antigo demonstrou o
movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que
a conscincia do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e
intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram s isso, mal
obtinham de mim uma compaixo aptica ou um sorriso de favor. No fim de
trs semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora,
um dia recebeu a tia Marcolina uma notcia grave; uma de suas filhas,
casada com um lavrador residente dali a cinco lguas, estava mal e 
morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era me extremosa, armou logo
uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse
conta do stio. Creio que, se no fosse a aflio, disporia o contrrio;
deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo  que fiquei s, com os
poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande
opresso, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um
crcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que
se reduzia; estava agora limitada a alguns espritos boais. O alferes
continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a
conscincia mais dbil. Os escravos punham uma nota de humildade nas
suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeio dos parentes e
a intimidade domstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles
redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nh alferes, de minuto a
minuto; nh alferes  muito bonito; nh alferes h de ser coronel; nh
alferes h de casar com moa bonita, filha de general; um concerto de
louvores e profecias, que me deixou exttico. Ah ! prfidos! mal podia eu
suspeitar a inteno secreta dos malvados.
- Mat-lo?
- Antes assim fosse.
- Coisa pior?
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- Ouam-me. Na manh seguinte achei-me s. Os velhacos, seduzidos
por outros, ou de movimento prprio, tinham resolvido fugir durante a
noite; e assim fizeram. Achei-me s, sem mais ningum, entre quatro
paredes, diante do terreiro deserto e da roa abandonada. Nenhum flego
humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ningum, um molequinho que
fosse. Galos e galinhas to-somente, um par de mulas, que filosofavam a
vida, sacudindo as moscas, e trs bois. Os mesmos ces foram levados
pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do
que ter morrido? era pior. No por medo; juro-lhes que no tinha medo; era
um pouco atrevidinho, tanto que no senti nada, durante as primeiras
horas. Fiquei triste por causa do dano causado  tia Marcolina; fiquei
tambm um pouco perplexo, no sabendo se devia ir ter com ela, para lhe
dar a triste notcia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo
alvitre, para no desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma
estava mal, eu ia somente aumentar a dor da me, sem remdio nenhum;
finalmente, esperei que o irmo do tio Peanha voltasse naquele dia ou no
outro, visto que tinha sado havia j trinta e seis horas. Mas a manh
passou sem vestgio dele;  tarde comecei a sentir a sensao como de
pessoa que houvesse perdido toda a ao nervosa, e no tivesse
conscincia da ao muscular. O irmo do tio Peanha no voltou nesse dia,
nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solido tomou
propores enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol
abrasou a terra com uma obstinao mais cansativa. As horas batiam de
sculo a sculo no velho relgio da sala, cuja pndula tic-tac, tic-tac, feriame
a alma interior, como um piparote contnuo da eternidade. Quando,
muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e
topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confessolhes
que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era
justamente assim que fazia o relgio da tia Marcolina: - Never, for ever!-
For ever, never! No eram golpes de pndula, era um dilogo do abismo,
um cochicho do nada. E ento de noite! No que a noite fosse mais
silenciosa. O silncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra,
era a solido ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ningum,
nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ningum em parte
nenhuma... Riem-se?
- Sim, parece que tinha um pouco de medo.
- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o caracterstico
daquela situao  que eu nem sequer podia ter medo, isto , o medo
vulgarmente entendido. Tinha uma sensao inexplicvel. Era como um
defunto andando, um sonmbulo, um boneco mecnico. Dormindo, era
outra coisa. O sono dava-me alvio, no pela razo comum de ser irmo da
morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenmeno: - o
sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma
interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da famlia e dos
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amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um
amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capito
ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro,
esvaa-se com o sono a conscincia do meu ser novo e nico -porque a
alma interior perdia a ao exclusiva, e ficava dependente da outra, que
teimava em no tornar... No tornava. Eu saa fora, a um lado e outro, a
ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne voistu
rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada
mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa,
nervoso, desesperado, estirava-me no canap da sala. Tic-tac, tic-tac.
Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava.
Em certa ocasio lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo poltico,
um romance, uma ode; no escolhi nada definitivamente; sentei-me e
tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo.
Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur
Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.
- Mas no comia?
- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas razes tostadas ao
fogo, mas suportaria tudo alegremente, se no fora a terrvel situao moral
em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de
Gonzaga, oitavas de Cames, dcimas, uma antologia em trinta volumes.
As vezes fazia ginstica; outra dava belisces nas pernas; mas o efeito era
s uma sensao fsica de dor ou de cansao, e mais nada. Tudo silncio,
um silncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da
pndula. Tic-tac, tic-tac...
- Na verdade, era de enlouquecer.
- Vo ouvir coisa pior. Convm dizer-lhes que, desde que ficara s,
no olhara uma s vez para o espelho. No era absteno deliberada, no
tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e
dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitria; e se tal explicao 
verdadeira, nada prova melhor a contradio humana, porque no fim de oito
dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de
achar-me dois. Olhei e recuei. O prprio vidro parecia conjurado com o
resto do universo; no me estampou a figura ntida e inteira, mas vaga,
esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis fsicas no
permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos
contornos e feies; assim devia ter sido. Mas tal no foi a minha sensao.
Ento tive medo; atribu o fenmeno  excitao nervosa em que andava;
receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E
levantei o brao com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de deciso,
olhando para o vidro; o gesto l estava, mas disperso, esgaado,
mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse,
sacudindo a roupa com estrpito, afligindo-me a frio com os botes, para
dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o
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espelho; a imagem era a mesma difuso de linhas, a mesma decomposio
de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspirao
inexplicvel, por um impulso sem clculo, lembrou-me... Se forem capazes
de adivinhar qual foi a minha idia...
- Diga.
- Estava a olhar para o vidro, com uma persistncia de desesperado,
contemplando as prprias feies derramadas e inacabadas, uma nuvem de
linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... No, no so capazes
de adivinhar.
- Mas, diga, diga.
- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo;
e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... no lhes digo
nada; o vidro reproduziu ento a figura integral; nenhuma linha de menos,
nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a
alma exterior. Essa alma ausente com a dona do stio, dispersa e fugida
com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que,
pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois
comea a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas no conhece
individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este  Fulano, aquele 
Sicrano; aqui est uma cadeira, ali um sof. Tudo volta ao que era antes do
sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro,
recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. No era mais um
autmato, era um ente animado. Da em diante, fui outro. Cada dia, a uma
certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo
olhando, meditando; no fim de duas, trs horas, despia-me outra vez. Com
este regime pude atravessar mais seis dias de solido sem os sentir...
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.
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Sobre o autor e sua obra
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS
nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de 1839 e
faleceu na mesma cidade, em 29 de setembro de
1908. Filho de mulato, brasileiro, e de branca,
portuguesa; era gago, epilptico, pobre,  por
causa disto no pde estudar em escolas e tornouse
um grande autodidata.
Colaborou na revista "Marmota Fluminense", foi
aprendiz de tipgrafo na Imprensa Nacional, onde
conheceu seu protetor, Manuel Antonio de Almeida;
foi revisor de provas na Editora Paula Brito e no
"Correio Mercantil" e colaborador em vrios jornais
e revistas da poca.
Na imprensa publicou vrios contos, crnicas, folhetins, artigos de crtica, muitos
dos quais assinados com pseudnimos: Plato, Gil, Lara, Dr. Semana, Job, M.A.,
Max Manasss e outros.
Casou-se em 1869 com D. Carolina Novais, que veio dar mais inspirao  sua vida
literria. Em 1904, quando D. Carolina morreu, ainda inspirou o mais belo soneto
de sua produco: "A Carolina", publicado no livro "Relquias de Casa Velha":
"Querida, ao p do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o corao de companheiro.
"Pulsa-lhe- aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existncia apetecida
E num recanto ps o mundo inteiro.
"Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
"Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
So pensamentos idos e vvidos".
Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
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Poesias: "Crislidas", (1864); "Falenas", "Americanas".
Romances: "Ressurreio", "A Mo e a Luva", "Helena", "Iai Garcia".
Contos: "Contos Fluminenses", "Histrias da Meia Noite", (1869).
Teatro: "Desencantos", "0 Caminho da Porta", "0 Protocolo", "Quase Ministro", "Os
Deuses de Casaca". Crnicas e Crticas. Fase Realista (de 1881 a 1908)
Poesias: "Ocidentais".
Romances: "Memrias Pstumas de Brs Cubas", "Quincas Borba", "Dom
Casmurro", "Esa e Jac", "Memorial de Aires". Contos: "Papis Avulsos",
"Histrias sem Data", "Vrias Histrias", "Pginas Recolhidas", "Relquias de Casa
Velha".
Teatro: "Tu, s Tu, Puro Amor" "No Consultes Mdico", "Lio de Botnica",
crnicas e crticas.
Machado de Assis  de estilo clssico e sbrio, com frases curtas e bem
construdas, vocabulrio muito rico e construes sintticas perfeitas. Sua obra 
de anlise de caracteres e seus tipos so inesquecveis e verdadeiros. Em toda sua
obra h uma preocupao pelo adultrio, tentado ou consumado, e muito de
filosofia: a filosofia do humanitismo, que  explicada no seu romance "Quincas
Borba". Sua tcnica de composio no romance  muito importante para a
compreenso da obra: no h homogeneidade na extenso dos captulos: ora
curtos, ora longos, no existe normalmente a seqncia linear, isto , muitas vezes
um captulo no tem um final de ao, que ir continuar no no imediatamente
seguinte, mas em outro um pouco distante. Esta tcnica procura prender a ateno
do leitor at o fim do livro, o que realmente consegue.
Sem dvida, trata-se do mais alto escritor brasileiro de todos os tempos, o
primeiro escritor universal de nossa Literatura. De uns tempos para c, sua obra
vem sendo objeto de estudos em profundidade, sob ngulos vrios, constituindo-se
no maior acervo bio-bibliogrfico que jamais suscitou um escritor nacional.
Sobretudo, cumpre destacar-se, como a mais importante de sua obra, a parte de
fico - seus contos, verdadeiras obras-primas - e os romances a partir da fase
que se Iniciou com as "Memrias Pstumas de Brs Cubas".
Machado de Assis no se filia a qualquer coisa, dando apenas vazo ao seu prprio
sentimento de homem introspectivo.  possuidor de um estilo simples, sem
nenhum artificialismo. A conciso  uma de suas mais eloqentes caractersticas.
Cuidou, em suas obras, mais do homem do que da paisagem. No foi grande
poeta. Inicialmente passou pelo romantismo e depois mostrou-se parnasiano. Para
Machado de Assis o homem  egosta, impassvel diante da felicidade ou
infelicidade do seu semelhante. 0 sofrimento  inerente  prpria condio
humana. 0 homem sonha com a felicidade, sem suspeitar que tudo  Iluso.
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Machado aconselha ento a solido, o Isolamento, por no crer no solidarismo
humano.
No teatro Machado de Assis se revela como tradutor, critico e comedigrafo. Como
critico procurava exaltar os valores morais. Para ele, "a arte pode aberrar das
condies atuais da sociedade para perder-se no mundo labirntico das abstraes.
0 teatro  para o povo o que o Coro era para o antigo povo grego: uma iniciativa
de moral e civilizao."
E ainda foi alm. Ressuscitando uma antiqualha dos Sculos XVII; inovou o soneto,
dando-lhe a forma contnua do (Crculo Vicioso). Outra inovao: a alternncia do
octosslabo com o tetrasslabo, de que se utilizou nos versos a Artur de Oliveira.
Combinado o octosslabo com o doclecasslabo, criou ainda o ritmo dos
agrupamentos da Mosca Azul. E deu em 1885 uma incomparvel lio de poesia
quando, na ocasio comemorativa do centenrio do Marqus de Pombal, publicou,
sob o ttulo de A Suprema Injria, uma srie de quatorze sonetos, onde no h
dois iguais na sua forma.
Machado de Assis foi ainda um tcnico do verso, o admirvel tradutor de a primeira
fase machadiana. 0 terceiro romance, Helena, jovem confrade, e escreve poesia, a
quem devemos pelo o que seria diferente da j representa uma evoluo. Vai
eclodir com as Memrias Pstumas de Brs Cubas.
No romance como na poesia, Machado de Assis ressente-se de influencia romntica
nas primeiras obras: Ressurreio (1872), A Mo e a Luva (1875), Helena (1876) e
Iai Garcia (1878).  toda romntica a concepo dos personagens e do entrecho;
revela-se a personalidade do autor na preocupao mais acentuada do estudo dos
caracteres. Mas as situaes que arma, para os revelar, e a prpria compreenso
que deles tem, tudo trai a viso romntica, ainda que mitigada pela analise
psicolgica.
De Ressurreio, em que a narrao e linear, a lngua pobre, os caracteres de
linhas definidas, a Iai Garcia, onde a narrativa  dotada de maior penetrao, a
lngua se precisa e os caracteres j se mostram mais complexos, o progresso 
significativo. 0 mais romanesco dos trs  Helena, a confinar por vezes com a
inverossimilhana.
Memrias Pstumas de Brs Cubas
Brs Cubas, j falecido, conta, do outro mundo, as suas memrias: "Expirei em
1869, na minha bela chcara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos
e prsperos, era solteiro, possua trezentos contos e fui acompanhado ao cemitrio
por onze amigos". Galhofando dos ascendentes, fala da prpria genealogia.
Assevera que morreu de pneumonia apanhada quando trabalhava num invento
farmacutico, um emplastro medicamentoso.
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Virglia, sua ex-amante, que j no via h alguns anos, visitou-o nos ltimos dias
de vida. Narra Brs Cubas um delrio que teve durante a agonia: montado num
hipoptomo foi arrebatado por unia extensa e gelada plancie, at o alto de uma
montanha, de onde divisa a sucesso dos sculos. Alm dos pais, tiveram grande
influncia na educao do pequeno Brs Cubas trs pessoas: tio Joo, homem de
lngua solta e vida galante; tio Ildefonso, cnego, piedoso e severo; Dona
Emerenciana, tia materna, que viveu pouco tempo. Brs passou uma infncia de
menino traquinas, mimado demasiadamente pelo pai.
Aos dezessete anos apaixona-se por Marcela, dama espanhola, com quem teve as
primeiras experincias amorosas. Para agradar Marcela, Brs comea a gastar
demais, assumindo compromissos graves e endividando-se. Marcela gostava de
jias e Brs procurava fazer-lhe todos os gostos. "Marcela amou-me, diz Brs
Cubas, durante quinze meses e onze contos de ris". Quando o pai tomou
conhecimento dos esbanjamentos do filho, mandou-o para a Europa: "vais cursar
uma Universidade", justificou. Em Coimbra, Brs segue o curso jurdico e
bacharela-se. Depois, atendendo a um chamado do pai, volta ao Rio: a me estava
moribunda. E, de fato, apenas chega ao Brasil, a me falece. Passando uns dias na
Tijuca, conhece Eugnia, moa bonita, mas com um defeito na perna que a fazia
coxear um pouco, com ela mantm um passageiro romance.
O pai de Brs tem duas, ambies para o filho: quer cas-lo e faze-lo deputado.
Tudo faz para encaminh-lo no rumo do casamento e procura aumentar o circulo
de amigos influentes na poltica, a fim de preparar o caminho para o futuro
deputado. Assim  que Brs Cubas  apresentado ao Conselheiro Dutra que
promete ajudar ao jovem bacharel na pretendida ascenso poltica.
Brs nesta altura vem a conhecer Virglia, filha do Conselheiro Dutra, pela qual se
apaixona. Parecia, com isso, que os sonhos do pai sobre Brs estavam prestes a
realizar-se: bem encaminhado na poltica e quase noivo. Entretanto aconteceu um
imprevisto: surge Lobo Neves que no somente lhe rouba a namorada, mas
tambm cai nas boas graas do Conselheiro Dutra.
Vendo assim preterido o filho, o pai de Brs sente-se profundamente desapontado
e magoado. Veio a falecer dali a alguns meses, de um desastre. Virglia casa-se
com Lobo Neves e, pouco tempo depois, v eleito Deputado o marido. Mas, na
verdade, Virglia casara-se com Lobo Neves por interesse, e ama realmente a Brs
Cubas. Virglia e Brs principiam a encontrar-se com freqncia e, em breve,
tornam-se amantes. Lobo Neves adorava a esposa e nela confiava inteiramente.
Alis no tinha muito tempo para observar o que se passava, j que estava
entregue totalmente  poltica.
Narra nesta altura Brs Cubas o encontro que teve com seu ex-colega de escola
primria, Quincas Borba, que se tornara um infeliz mendigo de rua. Depois do
encontro com Quincas, Brs percebe que o maltrapilho lhe roubara o relgio. Os
encontros amorosos entre Virglia e Brs suscitam comentrios e mexericos dos
vizinhos, amigos e conhecidos. Por esse motivo, Brs prope a Virglia a fuga para
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um lugar distante. Virglia, porm, pensa no marido que a ama e na famlia, e
sugere "uma casinha s nossa", metida num jardim, em alguma rua escondida. A
idia parece boa a Brs, que sai remoendo a proposta: "uma casinha solitria, em
alguma rua escura". Virglia e sua ex-empregada, chamada Dona Plcida, se
encarregam de adornar a casa e, aparentemente, quem ali reside  Dona Plcida.
Ali os dois amantes se encontram sem maiores embaraos, e sem despertarem
suspeitas. Sucedeu que, de certa feita, por motivos polticos, Lobo Neves foi
designado como presidente de uma provncia e, dessa forma, teria de afastar-se
com a mulher. Brs fica desesperado e pede a Virglia que no o abandone.
Quando tudo parece sem soluo, eis que surge Lobo Neves e, para agradar ao
amigo da famlia, convida-o para acompanh-lo como secretrio. Brs aceita. Os
mexericos se tornam mais intensos e Cotrim casado com Sabina, procura fazer ver
ao cunhado que a viagem seria uma aventura perigosa. Mais por superstio do
que pelos conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba no aceitando mais o cargo de
presidente, porque o decreto de nomeao sara publicado no Dirio oficial num dia
13: Lobo Neves tinha pavor pelo nmero, um nmero fatdico. Lobo Neves recebe
uma carta annima denunciando os amores da esposa com o amigo. Isso faz com
que os dois amantes se mostrem mais reservados, embora continuem
encontrando-se na Gamboa (onde fica a casa de Dona Plcida).
Surge ento um acontecimento que vem alterar a situao os personagens: Lobo
neves  novamente nomeado presidente e, desta vez, parte para o interior do pas
levando consigo a esposa. Brs procura distrair-se e esquecer a separao.
A irm Sabina, que vinha procurando "arranjar" um casamento para Brs, volta a
insistir em seu objetivo. A candidata, uma moa prendada, chamava-se Nh-lol.
Mesmo sem entusiasmo, Brs aparenta interesse pela pretendente, mas Nh-lol
vem a falecer durante urna epidemia. o tempo vai passando.
Mais por distrao do que por idealismo, Brs procura um derivativo de suas
decepes amorosas na poltica. Faz-se deputado e, na assemblia, vem a
encontrar-se com Lobo Neves que havia voltado da provncia. Encontra-se tambm
com Virglia, que no tinha j aquela beleza antiga que o havia atrado
anteriormente. Assim, por desinteresse reciproco, chegam ao fim os amores de
Brs e Virglia. Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe restitui o relgio,
passando a ser um freqentador da casa de Brs.
Quincas Borba estava mudado: no era mais mendigo, recebera uma herana de
um tio em Barbacena. Virara filsofo: havia inventado urna nova teoria filosficoreligiosa,
o Humanitismo, e no falava noutra coisa. 0 prprio Brs Cubas passa a
interessar-se muito pelas teorias de Quincas Borba. Morre, por esse tempo, o Lobo
Neves, e Virgilia "chorou com sinceridade o marido, como o havia trado com
sinceridade". Tambm vem a falecer Quincas, Borba, que havia enlouquecido
completamente. Brs Cubas deixou este mundo pouco depois de Quincas Borba,
por causa de urna molstia que apanhara quando tratava de um invento seu,
denominado " emplasto Brs Cubas".
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E o livro conclui:
"Imaginar mal; porque ao chegar a este outro lado do mistrio, achei-me com um
pequeno saldo, que  a derradeira negativa deste captulo de negativas: no tive
filhos, no transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa misria".
Fato narrativo em primeira pessoa; posio trans-temporal, a narrativa acompanha
os vaivns da memria do narrador defunto.
Quebra da unidade estrutural da narrativa: - forma livre, estrutura fragmentada,
ausncia de um fio lgico e ausncia de um conflito central.
Drama da irremedivel tolice humana. Brs Cubas tudo tentou e nada deixou. A
vida moral e afetiva  superada pela biologicamente satisfeita. Acomodao cnica
ao erro, ou melhor, a justificao moral interior racionalizada. Pessimismo
(influncia de Sterne, Schopenhauer, Darwin e Voltaire).
Segundo o Professor Alfredo Bosi :
"Memrias Pstumas de Brs Cubas" opera um salto qualitativo na Literatura
Brasileira. "A revoluo dessa obra, que parece cavar um poo entre dois mundos,
foi uma revoluo ideolgica e formal: aprofundando o desprezo s idealizaes
romnticas e ferindo o cerne do narrador onisciente, que tudo v e tudo julga,
Machado deixou emergir a conscincia nua do indivduo, fraco e incoerente. 0 que
restou foram as memrias de um homem igual a tantos outros, o cauto e
desfrutador Brs Cubas.
Quincas Borba
Quincas Borba  um filsofo-doido. Mais na segunda que na primeira parte. Criou
uma filosofia: Humanitas. "Humanitas"  o princpio nico, universal, eterno,
comum, indivisvel e indestrutvel... Pois essa substncia, esse principio
indestrutvel  que  Humanitas... " Uma guerra: duas tribos que se encontram,
frente a frente, perto de uma plantao de batatas que s daro para sustentar
uma delas.  a luta pelas batatas. Pela sobrevivncia. A tribo que vence, ganha as
batatas. "Ao vencedor, as batatas". Filosofia e sandice condimentam as lies de
Quincas Borba.
0 filsofo tinha um co: Quincas Borba. Pusera nele o seu prprio nome. Afinal
Humanitas era comum para ele e para o co. E no s: se morresse antes
sobreviveria o oo. Um co, meio tamanho, cor de chumbo, malhado de preto. Um
filsofo assim tinha que acabar em... Barbacena. AI conheceu a Piedade, viva de
parcos meios, Era irm de Rubio. No se casou com o herdeiro. Rubio foi o
melhor amigo e enfermeiro do filsofo.
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Quando Quincas Borba morreu, numa incurvel semidemncia, na casa de Brs
Cubas, no Rio, Rubio ficou rico, herdeiro universal do falecido filsofo. Herdeiro de
tudo. Depois em breve pendncia recebeu: casa na Corte, uma em Barcelona,
escravos, aes no Banco do Brasil e muitas outras, jias, dinheiro, livros, a
filosofia do morto e o seu co Quincas Borba. A clusula nica do testamento era
tratar bem o co.
0 novo-rico muda-se para a Corte. Fica conhecendo o casal Palha e Sofia. E o
pobre mestre-escola fica apaixonado por ela. Que olhos, que ombros, que
braos!... Vinte e seis anos... Cada aniversrio era um novo polimento dado pelo
tempo.  bonita, sabe que , e sabe mostrar-se. 0 marido gostava de mostr-la a
todos: vejam o que so as minhas e de se mostrar . E Sofia aprendeu logo e bem a
arte se mostrar. Sofia seduz Rubio. Engana-o... Busca o dinheiro. Ganha
presentes riqussimos. O marido funda at a sociedade Palha e Cia.
 o dinheiro de Rubio que vai correndo. Muito depressa. A Sofia tem l os seus
desejos escondidos para com o galanteador Carlos Maria, Pobre Rubio! 0 dinheiro
acabando, os amigos vo minguando, e a loucura vai chegando. Rubio passa
pelas ruas aos gritos dos moleques ( 0 gira,  gira...) certo que  Napoleo III .
Metem-no num Sanatrio. Rubio foge do sanatrio do Rio e vai para Barbacena.
L morre. E trs dias depois encontraram o co Quincas Borba, tambm morto,
numa rua.
 o fim? Leitor: "eia, chora os dois recentes, se tens lgrimas.Se so tens risos, rite.
 a mesma coisa.  outra crnica de fraquezas e misrias morais, concluda
com uma filosofia desencantada, a filosofia do Humanitas: "Ao vencedoras
batatas"... Uma sbita fortuna, uma paixo adltera, ambies polticas acabam
levando Rubio  loucura. Ele, que antes era um humilde mestre-escola, ingnuo e
puro, envolve-se em um novo mundo, violento e agressivo. A fraqueza o destri.
Narrado em 3a Pessoa.  o mais objetivo dos Romances de Machado. Anlise
psicolgica de um homem Pobre que subitamente fica rico e a fortuna arrasta-o 
loucura. E s a loucura salva Rubio do destino vulgar de vaidoso rico, explorado
pelos que o cercam.
O Humanitismo:
"Ao vencedor, as batatas", pode ser interpretado como uma pardia irnica ao
positivismo e evolucionismo. Posies filosficas dominantes na segunda metade
do sculo XIX-.  uma caricatura do princpio da evoluo e da seleo natural que,
na poca, saam do campo da biologia para impregnar a filosofia.
DOM CASMURRO
A prpria personagem central, Bentinho,  que conta a sua histria. Pincipia
dizendo que est morando, sozinho, auxiliado por um criado, no Engenho Novo
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(Rio de Janeiro), em uma casa que ele mandara construir igual quela em que
passara a infncia, em Matacavalos. Como vive isolado, os vizinhos apelidaram de
Dom Casmurro, apelido que pegara. A histria principia quando Bentinho j est
com quinze anos e sua amiga de infncia, Capitu, com quatorze.
Os dois crescem juntos e se estimam sinceramente. Dona Glria, me de Bentinho,
viva, tendo sido infeliz no primeiro parto, fizera a Deus uma promessa, se fosse
bem sucedida no segundo parto, o filho seria religioso (padre ou freira, conforme o
sexo)  Por isso, estava disposta a cumprir a promessa: Bentinho iria para o
seminrio.
 medida que o tempo passa e que a amizade de Bentinho e Capitu se transforma
em namoro srio e apaixonado, a idia do seminrio vai-se tornando um grave
problema para os dois, que buscam todas as maneiras de evit-lo. Justina, prima
de Dona Glria, que vivia em Casa desta, e a quem Bentinho suplica que interceda
com a me em seu favor, se nega. Jos Dias, velho empregado da casa, muito
estimado, diz que o problema no  fcil, pois o melhor , antes, aplainar o
caminho. 0 prprio Bentinho, de ndole tmida, tenta falar com a me, mas nem
sequer consegue dizer-lhe o que quer. Capitu, e Bentinho perdem as esperanas
de evitar o seminrio. De qualquer modo, amando-se sinceramente, juram que,
acontea o que acontecer, se casaro. Bentinho ir para o seminrio, mas ficar
apenas algum tempo. Depois sair e sero felizes.
No seminrio, Bentinho trava conhecimento com Escobar, que se toma seu amigo
e confidente. A vida agora transcorre entre os estudos eclesisticos e as visitas
semanais  sua casa. Escobar em conversa com bentinho, tem uma idia: Dona
Glria, rica que , poderia cumprir a promessa de outro modo, isto , custeando as
despesas de um seminarista pobre, ficando Bentinho livre do seminrio. A idia
vinga e Bentinho retoma  casa. Anos depois, j formado em Direito, casa-se com
Capitu e comeam uma vida repleta de felicidades. E essa felicidade ainda se torna
maior quando Escobar, que tambm sara do seminrio, casa-se com Sancha,
amiga de Capitu.
As duas famlias visitam-se freqentemente. Escobar e Sancha tm uma filha, 
qual do o nome de Capitolina (Capitu). A nica tristeza (se  que se pode chamar
tristeza)  no terem, Bentinho e Capitu, um filho. Por isso, fazem promessas e
rezam continuamente. E o filho vem: um menino, a alegria dos pais. Chama-se
Ezequiel. Escobar vem morar mais prximo de Bentinho e Capitu. Certo dia,
Escobar se aventura nadando pelo mar agitado e morre afogado. Sancha retira-se
para o Paran, onde possua parentes.
E a vida continua, feliz. S uma coisa principia a preocupar cada vez mais
seriamente a Bentinho: Ezequiel,  medida que vai crescendo, vai-se tornando uni
retrato vivo do falecido amigo. Os mesmos traos, o mesmo cabelo, os mesmos
olhos, o mesmo andar, at os mesmos tiques. A dvida atormenta Bentinho, e
uma infinidade de pequenas coisas que no passado haviam passado despercebidas
comeam a avolumar-se confirmando as suspeitas: Capitu o trara. Um dia explode
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com Capitu, que no consegue encontrar meios de escusar-se. Pelo contrrio, suas
desculpas confirmam definitivamente a culpa. Bentinho leva a esposa adltera? E o
filho de Escobar para a Sua, onde deles se separa. Tempos depois Capitu vem a
falecer. Ezequiel, j moo, surge em casa de Bentinho: tornara-se a cpia do pai.
Ezequiel no pra no Brasil e, participando de uma excurso no Oriente, tambm
morre.
 o trmino do livro. Conclui Machado de Assis: A minha primeira amiga e o meu
melhor amigo, to extremosos ambos e to queridos, tambm quis o destino que
acabassem juntando-se e enganando-me. A terra lhes seja leve!
Narrado na primeira pessoa, Bentinho (D. Casmurro), prope-se a ATAR AS DUAS
PONTAS DA VIDA. Ao evocar o passado, a personagem  narrador coloca-se num
ngulo neutro de viso. Dessa maneira, pode repassar, sem contamin-los,
episdios e situaes, atitudes e reaes, acompanhadas apenas da carga
emocional correspondente ao impacto do momento da ocorrncia.
Simultaneamente, ope a esse ngulo de reconstituio do passado o ngulo do
prprio momento da evocao, marcado pelo desmoronamento da iluso de sua
felicidade. Dessa forma temos uma dupla viso da experincia, reconstituda em
termos de exposio e de anlise. A viso esfumaada do adultrio  um dos
requintes do Bruxo do Cosme Velho (Machado). Parece inspirado no drama de
Otelo, de Shakespeare.
CAPITU: olhos de ressaca, cigana oblqua e dissimulada  a mais forte criao
de Machado. Com inalterada frieza e racionalidade calculada vai tecendo o seu
destino e tambm o dos outros.
ESA E JAC
 a histria dos gmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade, que desde o
nascimento dos meninos s pensa num futuro cheio de glria para eles.  medida
que vo crescendo, os irmos comeam a definir seus temperamentos diversos:
so rivais em tudo. Paulo  impulsivo, arrebatado, Pedro  dissimulado e
conservador  o que vem a ser motivo de brigas entre os dois. J adultos, a causa
principal de suas divergncias passa a ser de ordem poltica  Paulo  republicano
e Pedro, monarquista. Estamos em plena poca da Proclamao da Repblica,
quando decorre a ao do romance.
At em seus amores, os gmeos so competitivos. Flora, a moa de quem ambos
gostam, se entretm com um e outro, sem se decidir por nenhum- dos dois: 
retrada, modesta, e seu temperamento avesso a festas e alegrias levou o
conselheiro Aires a dizer que ela era inexplicvel. 0 conselheiro  mais um
grande personagem da galeria machadiana, que reaparecer como memorialista no
prximo e ltimo romance do autor: velho diplomata aposentado, de hbitos
discretos e gosto requintado, amante de citaes eruditas, muitas vezes interpreta
o pensamento do prprio romancista.
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As divergncias entre os irmos continuam, muito embora, com a morte de Flora,
tenham jurado junto a seu tmulo uma reconciliao perptua. Continuam a se
desentender, agora em plena tribuna, depois. Que ambos se elegeram deputados,
e s se reconciliam ao fim do livro, com novo juramento de amizade eterna, este
feito junto ao leito da me agonizante.
Narrado em terceira pessoa pelo o Conselheiro Aires. H referncias  situao
poltica do Pais, na transio Imprio/Repblica.  marcado pela ambigidade e
contradio. Pedro e Paulo so os dois lados da verdade.
MEMORIAL DE AIRES
Este  o ltimo romance do autor. Aqui, dois idlios so narrados paralelamente, ao
longo das memrias do conselheiro Aires, personagem surgido em Esa e Jac: o
do casal Aguiar e o da viva Fidfia com Tristo. Trata-se de um livro concebido
em tom ntimo e delicado, s vezes repleto de melancolia. Nele Machado de Assis
ps muito dos ltimos anos de sua vida com Carolina, falecida quatro anos antes
da publicao. No h muito que contar, seno pequenos fatos da vida cotidiana de
um casal de velhos. 0 estilo  de extrema sobriedade, e o autor, j na velhice,
pretendeu com este livro prestar um depoimento em favor da vida, ainda que em
tom de mal disfarada tristeza e at mesmo desolao.
Memorial de Aires (1908) opera um verdadeiro retrocesso na obra machadiana.
Nele o romancista retorna  concepo romntica, mitigada pelo ceticismo risonho
do conselheiro Aires. Ai se respira a mesma atmosfera dos seus primeiros
romances: os seres so de eleio e a vida gira em torno do amor. Distingue-o,
porm, e torna-a muito superior queles a mestria do ofcio, o domnio do
instrumento.
Como novidade, traz a forma de dirio e o narrador no  onisciente; observa
como simples comparsa os personagens principais, procura adivinhar-lhes o ntimo
atravs de suposies prprias ou atravs de informaes alheias  a dar alguma
idia do processo de Henry James, este, entretanto, muito outro, com outras
intenes e de outra tessitura.
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